Labirinto[s]

O Labirinto[s] é um espaço colectivo de criação literária dos meus alunos e alunas de português língua estrangeira. É antes de tudo um desafio, perturbador às vezes, verter para a língua portuguesa, as inquietações, os desejos e as vivências de cada um, de cada uma. Bem-vindos todos e todas.



Quinta-feira, Abril 17, 2008




Lisboa, 17 de Abril de 2008

Queridissima mãe,


Agora vou contar-te a história da Ernestina, como prometi ontem.



Durante a primeira noite as irmãs repararam nalgumas formigas mortas no chão mas não se preocuparam porque o chão estava completamente limpo no dia seguinte. Mas quem tinha varrido ? Não sabiam...

Durante a segunda noite, elas voltaram, as formigas. Só atacavam de noite, pela madrugada, segundo a Ernestina. A Xanda começou a sentir um cheiro no quarto e não sabia o que era.
A Ernestina explicava à irma que ela tinha visto as formigas seguirem em trilha intensa e compacta o percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subiam e nunca voltavam.
Dentro do caixotinho acontecia o mais grave: os ossos estavam a mudar de posição.

A Ernestina é uma rapariga cientifica e por isso é muito racional, sabes, não é, mamãe ? No entanto, tudo isso me parece totalmente doido.

Então, ela disse-me como durante nas madrugadas seguintes, os ossos estavam a mudar de posição mas numa forma não desorganizada... Pelo contrário! Os ossos estavam a mudar de posição para montar devagar mas correctamente... o esqueleto do anão : primeiro o crânio entre as omoplatas e depois foi a coluna vertebral.

Não é preciso de dizer que elas foram embora de lá rapidamente.

Mas o que é que tu achas, mãe? Talvez haja uma explicação, deve ter uma explicação. Desde que a Ernestina me contou esta história, só penso nisso. Penso em visitar a casa também, e fazer uma investigacão. Poderia tirar fotografias do caixotinho e tentar explicar a atitude daquelas formigas... Falo sério; é uma oportunidade de fazer alguma coisa diferente. Estou certa de que este enigma vai atrair a atenção de alguém. Alguém pode ser eu....

Daqui a tua resposta, muitos beijinhos.

Ana



Comentários:
Lisboa, 16 de Abril de 2008




Queridíssima mãe,



Talvez te lembres da minha amiga – a Ernestina. Eu também não a vi há muito tempo, mas ontem encontrei-a no centro comercial “Vasco de Gama”, cá em Lisboa. Podes imaginar? Foi uma grande e boa surpresa!
Não sei se te lembras, ela queria ser médica e agora estuda na universidade. Ela está no terceiro ano enquanto a irmã dela (a Xanda) estuda Direito.
Então encontrei-a ontem, fomos a um café para beber uma cerveja (duas Belgas em Lisboa têm de beber cerveja, não é?) e ela contou-me uma história esquisita.
Não tenhas medo, mas esta história é um bocadinho assustadora...

A Ernestina contou-me como há um mês atrás, ela foi com a sua irmã mais nova ao campo para descansar e estudar numa casa sossegada. A casa era sossegada, sossegada demais... A casa era sinistra e a proprietaria não era simpática. Ela só falava sobre um caixotinho que alguém devia ter levado mas ainda não o tinha. Este caixotinho, cheio de ossos, foi a origem do pesadelo das duas irmãs : a Ernestina pensava que os ossos eram de um anão (não te esqueças que ela vai ser médica e sabe sobre isso !) mas a Xanda não gostava de ouvir falar sobre ossos porque ela sonhava com o anão...

Tudo isso era normal até as formigas chegarem... Mas isto vou contar-te na minha próxima carta...

Até lá, muitos beijinhos da tua filha que te adora.


Ana



Comentários: Sexta-feira, Outubro 19, 2007



A viagem à verdade


Não me lembro do dia em que cheguei a Lisboa pela primeira vez. Só me lembro do ano. Foi no ano de 1992. Estávamos numa viagem de “Interrail”. Dois amigos, Gerald e Tschako viajavam comigo. Já tínhamos visitado a Itália, a França e a Espanha. Tão-pouco posso lembrar-me de muitos lugares ou cidades em que estávamos. Talvez porque bebemos demasiado vinho e dormimos tão pouco. E a única coisa de Lisboa que pude recordar foi o Elevador de Santa Justa que para mim foi muito impressionante. Gerald contou-me que tinha sido construído por um aluno de Eiffel. Mas ainda não sei se é verdade ou não.

Verdade – e o que é, ou significa, a verdade? Nunca nos questionamos sobre a possibilidade de que a verdade não existe; antes de tudo, ela é aquele “entendimento” consensual sobre determinado facto ou coisa. Ele ficou algumas horas a pensar no assunto, se deveria ou não dizer para eles tudo o que aconteceu no ano passado. Repentinamente, viu-se prisioneiro dento da própria rede de pensamentos que estava no interior da sua cabeça. Uma coisa puxava outra, uma palavra fazia insurgir, do centro da sua própria ferida (ele achava que as palavras eram feridas!) um outro vocábulo mais agudo e mais duro. E foi pensando assim. De palavra em palavra, que ele não chegou à verdade, mas retornou à infância.

Na minha infância vivia num subúrbio de Viena. Nesta zona da grande cidade havia muitas áreas verdes e para nós – o meu irmão e os nossos amigos – era um lugar ideal para brincar. Gostava de jogar à bola e o fazia quase todo meu tempo livre. Embora, nos primeiros anos tivesse resultados bons na escola, não gostava muito de estudar e de ficar sentado para fazer os meus trabalhos de casa. Por isso os meus pais tinham sempre que me forçar a estudar. E quanto mais me forçavam eu menos queria estudar.

Estudar – e pensou na forma mais rápida de resolver o problema; não era somente estudar o assunto, era superá-la! Havia dias em que as coisas corriam bem para ele, outros não. O ambiente no Instituto de Investigação não era agradável. Os seus colegas estavam por demais preocupados com as suas pequenas vidas e ele não tinha ninguém para debater as suas ideias sobre os assuntos que realmente tinham relevância. Nestas horas, sentia muita falta dos seus antigos amigos, daqueles primeiros anos da universidade onde ainda era possível pensar em mudar o mundo para melhor – e agora? O que querem os outros? O salário no fim do mês, todos os dentes (perfeitos) na boca dos filhos e as férias anuais na República Dominicana garantidas. O mundo definitivamente foi por outro caminho.

Comecei o Caminho de Santiago em Bilbao, uma cidade no norte de Espanha. Então fui andondo de bicicleta, pela costa do Pais Basco até a bonita cidade de San Sebastian, onde fiquei dois dias para recuperar-me do esforço das primeiras etapas. E depois, fresco como uma alface, fui em direcção ao sul subindo umas montanhas altas até Pamplona, que é famosa pelas corridas de touros. Mas não pude assistir a nenhuma corrida, porque no próximo dia continuei em direcção ao oeste começando o próprio Camino de Santiago “clássico”. E outra vez havia bastante montanhas no meu caminho que estava cheio de pedras, que tive que me esquivar para que a bicicleta não quebrasse.



Comentários:

Descrição objectiva

O maracujá tem uma casca grossa, roxa e escura. É mais o menos redondo com um diâmetro de cinco centímetros aproximadamente. Por dentro é suave e vermelho e contém muitas sementes.


Descrição subjectiva

O maracujá tem um sabor doce que recorda o dos sumos de frutas tropicais que se vendem nos mercados dos países latino-americanos. E repentinamente, sinto-me transportado para um daqueles mercados na Bolívia ouvindo as vozes altas da gente – na maioria indígenas – que vendem aquelas saladas e sumos de frutas e naturalmente também as mesmas frutas – como o maracujá.

Thomas



Comentários: Quinta-feira, Agosto 23, 2007



Assassínio na Avenida Duque de Loulé


Hoje chamou-me a atenção duas notícias nos jornais: a primeira era o anuncio do suicídio do Carlos, de 35 anos, o homem que tinha assassinado o Senhor Américo, de 70 anos, dono do seu apartamento, na Avenida Duque de Loulé, e que tinha escondido o corpo no armário. A outra noticia pareceu na revista Medicina de Vanguarda, e tratava de uma nova descoberta científica: a existência no corpo humano de uma espécie de “caixa preta”, parecida com a que está nos aviões, e que permite saber quais foram os últimos pensamentos de uma pessoa morta.

“Estou sozinho. Preciso de dinheiro.”

“Aqui está o pobre Carlos. Pobre Carlos. Há sete meses que está desempregado e ainda não encontrou trabalho. E a mulher e os filhos que se foram… Que chatice. Eu, sem Dona Delmira, não sei o que me teria acontecido… Pobre Carlos.”

“Estou sozinho. Preciso de dinheiro.”

“Mas não o posso seguir ajudando infinitamente. Dona Delmira não concorda. Ela acha que não lhe deveria ter emprestado o carro, e dinheiro, e lhe dado tempo para o aluguer – claro que seis meses de prazo são demasiado – e ainda a comida. Mas Pobre Carlos. Precisa de ajuda. Mas não gosto de que me fale assim. Sou idoso, mereço respeito! Ah! Não menino não sejas tão violento, sou idoso, sou fraco, sempre te ajudei e… Ah. Sempre achei que este momento o viveria com Dona Delmira junto de mim.”

“Estou Sozinho. Vou comer uma pizza.”


Katia





Comentários: Quarta-feira, Agosto 22, 2007



Objectivação iogurtesca

Chego à secção dos iogurtes. A escolha é muito grande, pois existe uma grande concorrência entre as diferentes marcas. Chega um rapaz a minha direita, e olho-o. Chega uma rapariga, que começa a simpatizar com o rapaz. Entretanto, uma idosa me pede para apanhar uns iogurtes que ficam na estante mais alto. Enquanto tento cumprir com este pedido, o rapaz e a rapariga foram-se.


Subjetivação iogurtesca

No supermercado, a sociedade de consumo transformou as diferentes secções alimentarias em tantos altares ao existencialismo. A existência precede a essência. O meu ser mais profundo depende das minhas escolhas. E aqui, quantas escolhas, quantas alternativas! Bom, são iogurtes. Mas já. Então, mousse leve de bananas “light” ou nata de chocolate da avó com saborosos pedaços de abacaxi cristalizada? Ah, ser condenada à liberdade! Tenho de ser mais spinozista, deixar-me invadir pelo fluxo da vida para que as boas paixões me guiem até à boa marca… Fixe. É verdade! Como nos serve a filosofia no dia-a-dia. E fixe, outra vez! Que belo é o rapaz que acaba de chegar, a procura ele também de uma experiência sartreana!... Pois não, já escolheu seus iogurtes, e está a falar com uma desesperada, irritante, absurdamente linda energúmena. E é loura. Deveriam proibir a secção dos iogurtes àquele tipo de pessoas. E o que quer esta velhinha que está a puxar-me o braço, mas como fazem para ter tanta força a esta idade, Eh, dói, Sim, com certeza, vou apanhar isto para você, Estes iogurtes de merda que ficam na última prateleira, e claro que vou me cair ao tentar de me fazer maior do que sou, e porque esse velha chata não pediu a outra pessoa que não meça menos de um metro sessenta, Aqui estão os seus iogurtes senhora, Não, de nada, Sim, boa tarde, Vai-te embora enviada do diabo, e já se foram, a tua cúmplice com a minha alma, o amor da minha vida, é tão cruel a vida, e ainda não escolhi os iogurtes.

Katia




Comentários: Terça-feira, Agosto 21, 2007

Faro, domingo 19 de Agosto, 22.14

A vida é uma grande mudança

Hoje cheguei a Faro depois de uma viagem de 4 horas de comboio. Tenho um sentimento um pouco estranho e também um pouco triste: gostei muito de Lisboa e agora não sei o que posso esperar deste nova cidade.
Esta noite dei um pequeno passeio. Não obstante os numerosos turistas, Faro é uma cidade muito bonita, e muito meridional também… Encontrei também o Leo, estudante austríaco que esteve também em Lisboa. Falámos do bom tempo que passámos em Lisboa. E já nos perguntámos se era uma boa escolha de abandonar a capital de Portugal.
A gente tem sempre medo mudar os nossos hábitos. Já depois duas semanas temos medo para esta “outra coisa”. Mas a vida é assim, e Lisboa é só uma recordação. Uma boa recordação.

Dave

Faro, domingo 19 de Agosto, 22.35



Comentários: Dentro da noite veloz, nenhum poema é possível



Sintra, sábado, 18 de Agosto de 2007, entre 00h40 e 01h21

Que tu cuerpo de hombre com mi cuerpo de hombre
construyen un lugar necesario en el mundo.


Juan António GONZÁLEZ IGLESIAS



Vou à casa de banho e interrogo-me no espelho. Tenho quarenta e um anos. Bem de perto, vejo minha imagem prisioneira dentro da pupila, eu, como um génio da lâmpada na ilha escura cercada por um mar castanho. Nesta noite posso perceber esse teu mundo vazio de projecto político, essa tua capacidade de negar aos homens a sua humanidade afectiva. Agora vejo a pronúncia veemente das nossas diferenças – tu não sabes amar, e eu tenho sede. Tu caminhas noutra direcção, e eu me pergunto “que diabos estou a fazer aqui? Que espécie de lição obscura posso aprender desse desencontro?” Olho mais de perto o ser minúsculo que sou, reflectido no espelho desta casa estrangeira, e no fundo da minha pupila afogo-me numa bandeja de ónix, a noite aqui não corre. Ouço a música que vem do quarto, e a tua voz imprecisa desenha no ar palavras sem concerto, eu sei tu sabes o novo tipo de angústia que está prestes a cair sobre nós como uma chuva de fogo bíblica, ancestral, definitiva.

Olho à minha volta, ainda estou na casa de banho e me sinto como um pássaro exótico em exibição privada, um anjo de asas vermelhas e fala aramaica. Somente isso pode explicar o facto de tu não me compreenderes. Gostas de mim sem esforço de entendimento, sem interrogação. “E como eu posso viver num mundo sem interrogação?” Eu sinto muito, sou fraco diante da fé, eu só sei duvidar. E para o meu desespero, a noite aqui não passa veloz, neste anti-poema no fim do mundo.


Oscar



Comentários: A noite veloz, entre 6h45 e 08h10, num lugar entre Évora e Lisboa


Já passou a noite.


Nem Sequer ficam as estrelas, achou a rapariga, levantando o rosto até um céu cor de tinta, como a que fica sobre as mãos depois de uma redacção, um céu escuro, mas desbotado, transparente quase, embora quase tocável, para não utilizar a metáfora já gasta do azul profundo do oceano.

A noite tinha passado de maneira tão veloz, e com ela, a sensação de liberdade que traz.

O que poderia escrever, perguntava-se a rapariga, mordendo a caneta, não, esta imagem é demasiado conformista, e não é verdade, visto que agora, os dentes de rato, ou de coelho, depende do ponto de vista, estão a roer suas unhas.

Os pensamentos iam desfilando na minha mente, como as paisagens desfilavam diante dos meus olhos, detrás da janela do comboio que caminhava veloz pela noite que se finda, até um dia cor-de-rosa. Mas não é verdade, porque na realidade os pensamentos dela não estão a seguir nenhuma corrida desenfreada ao encadearem-se as palavras umas às outras com sua própria lógica absurda… Estão mais bem parados, brancos, derretidos, perdidos na imensidade da paisagem alentejana que parece também se derreter num mar tranquilo de árvores de cortiça e a erva dourada pela seca.

Senhores passageiros, informamo-lhes que chegamos à estação de Casa Branca. O que vou a escrever? Tenho de escrever. É preciso de escrever um texto, a noite veloz, infinitivo pessoal. Devo escrever – obrigação moral? Casa Branca a noite veloz. Como no filme quase homónimo – ela não o vê, mas imagina que é assim – uma mulher com ares de deusa grega e um homem que leva uma gabardina e um chapéu de gangster estão a beijar-se sob a fina chuva – não, não deve chover muito no Alentejo, sob os fracos faróis e o olhar inquietante, inquietado da lua. Mas aqui a cena não é de branco e preto, mas está colorida de azul, verde, amarelo, azul e branco, como se os azulejos da estação de Casa Branca tivessem tingido esta paixão: as bocas do casal estão amarelas de desejo, o cabelo louro da mulher desce perfeito em verdes ondas sobre os seus ombros, a gabardina do homem, os saltos altos dela, os pelos eriçados de prazer e clandestinidade, tudo é azul, branco, azul, azul de tinta, azul profundo de oceano, azul “lejos” – que chatice que não posso escrever em castelhano, embora que ao ler esta expressão agora me parece de muito mau gosto. A mulher olha o homem e se pode ler no rímel perfeito dos seus olhos uma pergunta em forma de súplica: O que vou escrever?

Com alguma coisa no estômago, se calhar, sentirei-me melhor e chegará a inspiração. Mas o restaurante está fechado. Malditos e pobres portugueses. Não sabem o que os espera. Dentro de pouco, a fome vai convertê-la em animal selvagem, em pequena fera incontrolável. Tem de escrever alguma coisa, e rápido.

E porque ela não decide de escrever, como gostaria tanto, sobre aquelas noites alcoólatras e urbanas, claro que só velozes, tão velozes que só ficam delas as cores ácidas dos neons dos bares, o risco fulgurante de conversações-cometas, música, música e mais música sem rumo, e uma dor de cabeça.

Mas a noite já passou.

O que vou escrever?

Katia




Comentários:

No supermercado


Objectivamente

Entro neste supermercado pela primeira vez. Dou algumas voltas e pego algumas coisas, pão, atum posta em óleo vegetal, azeitonas verdes e um iogurte. Vou a caixa e pago, recebo o troco, nos agradecemos e saio do supermercado.

Subjectivamente

Entro neste supermercado pela primeira vez. É muito diferente dos supermercados que conheço no meu país. Saúdo à senhora detrás da caixa, mas me responde com um silêncio. Ponho-me inseguro. Não se saudará em Portugal? Bom, decido prosseguir mas já não vou saudar no futuro. Lentamente descubro os corredores. Em cima dos prateleiras os produtos caros mais abaixo os preços também baixam. Há coisas que são iguais no todo o mundo. Passam duas meninas bonitas. Estou confuso. Que foi que queria comprar? Ah sim, o jantar. No ar permanece um perfume, mas os meus olhos voltam aos preços. Detrás dum balcão alguém me observa porque são a única pessoa na loja. Me escondo atrás duma prateleira para escapar de a sua vista. Rapidamente pego as coisas que na minha imaginação formam um jantar. Volto à senhora que não me saudou quando entrei. Vou à caixa e pago recebo o troco junto com um sorriso, nos agradecemos e saio do supermercado.

Simon



Comentários: Sexta-feira, Agosto 17, 2007




A HISTORIA DA MARIA

A história da Maria é uma história triste. Muito, muito triste.

Tudo começou já durante a sua juventude. Era uma juventude difícil: a sua mãe não cuidava dela, o seu irmão tirava sempre os seus brinquedos e o seu pai estava regularmente embriagado.

Se tudo isso já não era o suficiente, o pior sucedia aos 13 anos, quando o seu amado gato Alfonso morria depois duma intoxicação alimentar que durou três semanas.

Felizmente, um dia a Maria encontrou o Joaquim durante uma reunião duma associação, chamada SCPC (que era uma abreviação para “Sociedade com um Coração Para os Coelhos). Era amor à primeira vista. O Joaquim era tudo do que Maria tinha sonhado: grande, forte, afectuoso… Mas, sobretudo, a Maria tinha-se impressionado com sua maravilhosa colecção de selos.

Tudo parecia perfeito, mas um novo evento sinistro se produzia. Uns dos coelhos do pobre Joaquim escapou da sua gaiola e destruía dois dos seus selos mais precisos. O Joaquim não podia suportar este evento. Dois dias depois, ele suicidava-se na banheira no meio dos seus patos de banho.

Neste dia a Maria decidiu ficar para sempre sozinha. Sozinha com o coelho do pobre Joaquim.


Dave





Comentários:

O coração de Lili

Dizem que sou uma mulher com coração de pedra.

Dizem que o amor é a minha bruxaria, e que o meu quarto está cheio com os ossos dos amantes que comi, e com as cartas de amor que eles me mandaram, secas, amarrotadas, pregadas às paredes como borboletas mortas.

Mas não é a minha culpa se gosto da grande cama vazia, da carícia áspera e solitária dos lençóis frescos com cheiro de jasmim. Não é a minha culpa se a taça de nata parece mais apetitosa com uma colher sozinha, e a liberdade, mais saborosa sem compromisso para torná-la pesada.

O único amor que sinto é o meu, um amor sem dor, sem cor, com sabor agridoce e odor a floras de árvore apodrecidas.

O meu coração é uma laranja, cada vez mais seca, ennrugada, quase morta.

Katia




Comentários: Quinta-feira, Agosto 16, 2007






A CEREJA:

CEREJA: f. Fruta roxa com talo que normalmente se come na primavera e no verão. A cereja tem uma forma oval e um gosto muito agradável. Alguns passeiros gostam muito desta fruta, o que não facilita a sua produção.


A CEREJA E UMA FINGIDORA


Como a minha cereja
E gosto muito dela
Mas depois de um minuto
O gosto desaparece
A minha cereja é uma fingidora

Cheiro a minha cereja
E gosto muito disso
Mas depois de um instante
O aroma desaparece
A minha cereja é uma fingidora

E a natureza que me deu a cereja
A natureza, o ambiente, a vida
E como o gosto da cereja
Como o aroma da cereja
Também a vida, um dia, desaparecerá
A vida é uma fingidora.



Dave



Comentários:



A forma da cereja é redonda, com umas irregularidades devidas aos golpes ou à presença do talo. O talo mede entre uma e duas vezes o tamanho da cereja, que ela mesma mede perto de um centímetro e meio. O exterior da cereja é liso, quase como plástico. Mas o interior e muito sumarento, e é mas claro que o interior, cuja cor depende das frutas: algumas podem ser quase pretas, outras vermelhas escuro, outras quase rojas. Dentro da cereja fica o núcleo, que é duro e que ocupa um espaço variável dentro da cereja. O núcleo é de cor de pele, a matéria dele se parece a madeira.

Gosto muito da cereja não por causa do sabor – na realidade, não gosto muito do sabor das frutas em geral, como frutas porque são boas para a saúde, como dizem os “dietéticos”-, mas porque é a fruta mais lúdica que existe. A cereja é uma fruta para crianças, para as que se aborrecem numa tarde quente de verão. Tenho de dizer antes de todo que é também uma das frutas mais belas, com a sua pele lisa e quase artificial, as suas tonalidades de cores diferentes, a sua forma não perfeitamente redonda: um cesto de cerejas parece-se a um cesto cheio de pequeninas bocas que estão prestes a dar um beijo. É uma fruta muito feminina: a sua cor evoca a paixão, e pode servir de jóias para as orelhas das crianças ou das mulheres que ficaram com o gosto da infância. Comer uma cereja é como desnudar a alguém, porque se lhe tira todos os seus atributos para deixá-la nua: acho que o núcleo da cereja é uma boa ilustração visual da simplicidade e da vulnerabilidade. Todo isto é muito glamouroso, mas também podemos fazer coisas muito mais asquerosas – embora engraçadas com umas cerejas. Muitos concursos por exemplo: já tentaram o concurso de quem consegue pôr mais cerejas na sua boca? Ou de quem cospe a semente o mais longe? São ocupações muito interessantes quando não se sabe que fazer. Bem. E, por fim, cada cereja tem um sabor diferente: como dizia a mãe de Forrest Gump : “nunca se sabe com que vamos ficar”. A cereja tem o sabor da surpresa.

Katia



Comentários: O Labirinto de Kátia



Uma noite de Verão, eu estava dormindo com a janela aberta, quando sonhei que ouvia uma música, e esta música acordou-me. A música havia desaparecido, mas na janela, olhando-me com os sues olhos, estava um gato. Aparecia e tinha muita fome, mas não havia nada para comer. Felizmente estava também um rato no labirinto. Felizmente para o gato porque para o rato – esse animal asqueroso sempre habitou os meus pesadelos mais íntimos. Lembro-me que uma vez sonhei que à noite ratazanas brancas saíam do interior da parede do meu quarto e vinham roubar-me os dentes da boca. Era como um beijo nojento, onde à cada mordida de um animal, eu perdia um dente. Por causa disso, sempre tenho muito cuidado quando estou na presença de um rato, esse animal que pode sobreviver à uma hecantombe nuclear.

Então, chamou-me o presidente dos Estados Unidos e me disse: - Como você sabe que estamos preparando a última guerra nuclear? “ (O presidente dos EUA, por causa do FBI, conhece todos os pensamentos de todos os homens da terra.)”. Respondi que sempre havia sabido que ele queria ser o Dono do Mundo. Teve de ser salvo. A guerra continuava e, já mais de 10.000 pessoas foram mortas. Algumas de fome, outras de sede, porque não havia água ou qualquer coisa para comer no labirinto.

Os outros continuavam com as mesmas questões – depois de tantos anos, ainda não sabiam ao certo o que queriam da vida. Casar-se, ter filhos, uma casa confortável no subúrbio e um salário certo e garantido ao fim domes ainda constituía o desejo dos meus amigos mais acomodados. Mas os “outros”, aqueles com os quais eu me identificava, estavam espalhados sozinhos – cada qual com a sua solidão particular – pela vastidão do mundo, mas de vez em quando o telefone tocava. Peguei no telefone, mas em vez de ouvir uma voz, ouvi um ruído muito ligeiro, como o ruído do mar ou o ruído do vento nas montanhas. Pus o telefone muito perto da minha orelha, o mais perto que podia e, de repente, senti que eu era aspirada e os meus colegas também. Era um dia com muito calor e o sol brilhava forte. Havia três meses que não chovia nunca e o chão do labirinto era como uma praia. E finalmente chegava ao mar e sentia-me bem, era como se depois do juízo Final a minha recompensa era ser desterrado para uma praia deserta ommuitosol,um vento leve e à noite uma brisa agradável. Eu sabia que a solidão também podia ser uma experiência agradável, e eu me reconciliava com a Natureza e com a minha personalidade intempestiva – agora eu era a PAZ, eu era o mar, e tinha encontrado o meu verdadeiro EU.

Katia, Dave e Carlos



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